quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Treino de Guarda-redes

Silva Pereira, P. - O Processo de treino do Guarda-redes de Futebol - da teoria à prática (2009). 
Um estudo com Wil Coort e Ricardo Peres.
Universidade do Porto, Faculdade de Desporto. 

É importante:
 a) Verificar o que se entende por Modelo de Formação de Guarda-redes e perceber quais os aspetos determinantes que deverão estar presentes;
b) Compreender o papel que o Guarda-redes deverá assumir na equipa e em que deverá consistir o seu treino; 
c) que o treinador de Guarda-redes saiba o que é estar na baliza;
d) que o processo de treino do Guarda-redes deva passar pelo reconhecimento de situações de jogo, refinando os processos de perceção, decisão e antecipação à medida que se criam hábitos de ação específicos;
e) esta preocupação (d) deva estar presente desde o período preparatório onde se começa a esboçar o jogar;
f) que a operacionalização dos princípios e a operacionalização dos conteúdos sejam paralelos e interajam mutuamente. 


A formação inicial do guarda-redes terá de contemplar ambientes de incerteza que permitem o seu desenvolvimento individual a partir do jogo, sendo a sua base comum aos restantes jogadores.  
Por isso, e de acordo com (Sainz de Baranda, 2005), no início, o treino do jovem guarda-redes deverá ser composto por situações que permitam que este realize as três fases do comportamento motor: a perceção, a tomada de decisão e a execução. Esta necessidade prende-se com o facto do jogo:
 1. ser composto essencialmente por habilidades abertas, ou seja, são habilidades que se desenrolam num envolvimento variável e imprevisível, em que um objeto ou contexto do envolvimento estão em movimento e determinam quando começa a ação. Para obter sucesso, o indivíduo tem de atuar de acordo com a ação do objeto ou segundo as caraterísticas do envolvimento, o qual está em contínua modificação temporal e espacial (Vasconcelos, 2006) 
 2. ser um sistema em que o significado é dado pelo "todo", que é constituído pelas relações dos seus constituintes. Como o "jogar" expressa as relações de cooperação entre os colegas e de oposição com os adversários, o jogo pode ser definido como um sistema de "sistemas". (Morin, 1997)
 3. ser um sistema dinâmico, ou seja, surge como uma sinergia emergente entre os jogadores envolvidos e não como uma súmula das ações individuais, em constante adaptação ao meio envolvente, o que faz com que a tomada de decisão se baseie num processo de exploração e seleção de informação relevante de forma continuada e ativa, para que as escolhas tenham sentido. 


 
 



Nas primeiras fases de aprendizagem, devem-se construir progressões que respeitem as caraterísticas biopsicossociais das crianças e que promovam o desenvolvimento da criatividade, principalmente porque é sabido que os jovens, com maior domínio de movimentos apresentam uma maior variedade de ação motriz (Voser et al., 2006). Então, os exercícios terão de possibilitar a existência da aleatoriedade e de surgirem comportamentos auto-organizados, ou seja, terão de se basear em processos probabilísticos em vez daqueles estritamente deterministas (Frade, 2003 cit. Por Fonseca 2006). No entanto, esse aparecimento dos comportamentos não pode ser desprovido de sentido, pois como salienta Portolés (2007, cit. Por Tamarit, 2007), não pode haver criatividade sem intencionalidade. Trata-se portanto, de ensinar que os princípios marcam o início de um comportamento, mas o final, esse é dado pela criatividade do jogador, sempre subjacente a uma determinada ideia de jogo (Tamarit, 2007).

Voser et al. (2006) apresentam uma proposta de formação do guarda-redes. Afirma que numa primeira fase, dos 6 aos 9 anos, devemos deixar as crianças experimentarem várias posições e também outras modalidades desportivas sempre que possível, para que depois, comecem a realizar movimentos específicos da posição de guarda-redes.  
Para eles,
 

Escalão
Dimensão física
Dimensão técnica
Dimensão tática
Dimensão específica
Benjamins
15%
70%
5%
10%
Infantis e Iniciados
20%
50%
10%
20%
Juvenis
30%
25%
10%
35%
Juniores e transição para sénior
30%
20%
10%
40%


·         

Na fase de pré-formação, o mais importante é a ênfase na melhoria das ações motoras simples com bola. Esta fase será tanto melhor quanto melhores tenham sido as vivências motoras da criança dos 6 aos 9 anos, mais especificamente com relação aos movimentos naturais (andar, correr, saltitar, etc). 
Posteriormente na fase de formação inicial, a ênfase será na questão das qualidades coordenativas e a especificidade deverá chegar a um volume considerável no final desta etapa, ou seja, no final dos 13 anos. 
É importante desenvolver atividades para o desenvolvimento técnico desde que estas sejam um meio e não um fim e devem-se destacar exercícios físicos de caráter mais geral. Dá-se a incorporação do físico com o técnico, com evolução gradual. Com relação aos aspetos específicos da preparação do guarda-redes torna-se fundamental que este jovem atleta tenha uma grande variabilidade de ações motoras próprias da sua posição. Devem-se corrigir os vícios de execução.
Na fase final de formação, devem-se enfatizar todas as qualidades do jogador (dimensão tática, técnica, física e psicológica), e na fase de formação especial, continuar a evoluir. 

Martone (1997), evidencia também grande preocupação com as idades mais tenras. Ele defende que o desenvolvimento da reação, da capacidade de orientação espaço-temporal e da diferenciação devem ser estimuladas desde cedo. 


Nas crianças de 8 anos a capacidade de tratamento da informação é menos de metade de um de 12 anos e praticamente até aos 10 anos, eles não são capazes de inibir a elaboração de informação relevante e não resistem a potenciais estímulos de distração, dividindo a atenção pelo que é essencial e pelo que não é. Para além disso, um guarda-redes de 8 anos, tem várias dificuldades em lidar com a pressão de ter um adversário para lhe tirar a bola após um atraso, devido à falta de controlo motor e de ler rapidamente o que se passa, agindo em conformidade. Daí que, Tamarit (2007) refira a importância da repetição sistémica, fazendo aparecer  uma grande percentagem dos comportamentos que queremos que sejam realizados pelos jogadores. Para isso, devemos condicionar o exercício, para que surja rapidamente o comportamento pretendido (Tamarit, 2007). Dessa forma, será possível a criação de hábitos que são processos subconscientes que permitem a decisão e a reação rápida (McCrone 2002).  
Tamarit (2007) esclarece: "quando o cérebro encontra situações (no jogo) semelhantes às que experenciou (no treino) anteriormente (e com que foram incorporadas como automatismos), reage perante certos estímulos já conhecidos de forma inconsciente, permitindo reduzir o tempo de descodificação das informações existentes". Dessa forma, o timing decisional pode ser reduzido de 500 a 200 milésimas de segundo, devido aos atalhos neuronais que são criados (Jensen, 2002) 


Martone (1997) reconhece também a importância da decisão e refere que a aprendizagem do guarda-redes dá-se não em situações em que a resposta lhe esteja a ser dada sistematicamente, mas sim em situações de jogo, onde ele encontre as suas próprias respostas aos problemas. No entanto, na sua opinião, nas idades mais baixas, a intervenção do treinador deverá ser a mais indireta possível, ou seja, apenas para a modificação do exercício em termos das condicionantes e não durante o exercício em si. Apenas a partir dos 12 anos é que será de outra forma, pois entre os 7 e os 12 anos há um aperfeiçoamento da capacidade coordenativa e cognitiva, favorecendo a aprendizagem de condutas específicas sob condições de grande variabilidade.

Vigil (2008) apresenta também a sua proposta de ensino dos conteúdos de treino do guarda-redes de Futebol desde os 10 anos até aos 16 anos.




Escalão/Idade
Dimensão Técnica
Dimensão Tática
Dimensão Física
Dimensão Psicológica
10 anos
Entender a posição específica; Dominar a bola; saber rodar, distribuir, passar e lançar a bola
Conhecimento das regras básicas
Adaptação ao jogo; manter equilíbrio e coordenação; aquecimento e recuperação básicas
A criança deve divertir-se e ter prazer; o treino deve ser simples
11/12 anos
Posição base; Controlo e distribuição da bola com as mãos e pés; saber reagir a cruzamentos; saber realizar passes curtos e resolver 1x1
Entender o papel do guarda-redes com respeito aos princípios básicos; inteirar-se das posições e papéis dos restantes jogadores
Equilíbrio, coordenação e ritmo; conhecer os gestos específicos do guarda-redes; Flexibilidade e mobilidade; aquecimento e recuperações básicas
Progressão de técnica simples e estabelecer os níveis/as normas: realizar trabalho em grupos
13/14 anos
Maneiras de defender remates agarrando ou desviando a bola; reduzir ângulos; saber movimentar-se para não sofrer golos; exercícios para melhorar a reação e que os façam decidir; distribuição da bola com a mão e com os pés e pontapés de baliza; importância do apoio e disponibilidade; saber como controlar e passar a bola com ambos os pés; saber jogar 1x1
Conhecer o jogo de futebol e as regras do jogo; entender situações relacionadas com o 11x11; ter a capacidade de comunicar com os companheiros
Manter equilíbrio, coordenação; conhecer gestos específicos para os guarda-redes; exercícios de flexibilidade e mobilidade; aquecimento e recuperação  
Bom conhecimento da pequena e da grande área; Preparação do treino e do jogo de futebol; saber aceitar a avaliação, os elogios e a crítica


Para Capuano (2002) existem quatro pontos importantes para a formação do jovem guarda-redes: 
1. Promover situações de jogo, pois estas contêm vários tempos para decidir (umas vezes mais, outras vezes menos), os adversários, os colegas, referencias temporais e espaciais e tudo isto ajuda imenso o guarda-redes a decidir nas mais variadas situações. 
2. Desenvolvimento do pensamento tático, visto este ser um suporte essencial para a formação da antecipação motora complexa. Antecipar é intuir comportamentos e nesse sentido, influencia a própria coordenação motora do jovem guarda-redes. 
3. Treino ideológico-motor, porque apesar das crianças ainda não terem esta capacidade, a partir de determinadas idades (12,13 anos) este tipo de treino permite uma exercitação mental que associada aos aspetos motores, desenvolvem o controlo motor determinado pela via cinestésica. Dá ao guarda-redes a capacidade de pensar inversamente. 
4. Treino específico que compreende a execução de várias ações técnicas, sob várias condições, levando à aquisição dos comportamentos típicos do guarda-redes - Englobam também as ações táticas específicas do posto. 
 Silvestre (2008), apresenta também uma proposta para o treino de guarda-redes por escalões:

  
Benjamins
Grande ênfase nos aspetos técnicos, com grande papel da instrução e do feedback (importante o cinestésico) do treinador. Complexidade reduzida e muitas repetições.
Infantis
Continuação do ênfase nos aspetos técnicos e uma importância cada vez maior da componente tática.
Iniciados
Dimensão técnica (50%) continua com maior importância; Dimensão tática (30%); Dimensão física (15%); Dimensão psicológica (5%)
 

Método de Hoek, 2006:

Fase 1 – Controlar a Bola
Técnica/habilidades; programas de desenvolvimento da técnica; dominar a bola; criar as bases para jogar contra o adversário; sempre com a baliza (de vários tamanhos) para defender e atacar
Fase 2 – Jogando Juntos
Desenvolver a perspicácia, a compreensão e a comunicação; com os colegas de equipa e contra o adversário – desenvolver interações; do 2x1 ao 8x8; sempre com a baliza (de vários tamanhos) para defender e atacar.
Fase 3 – Jogando juntos com sistemas
Desenvolver a perspicácia, a compreensão e a comunicação; Jogar em diferentes sistemas: 1-4-3-3/1-4-4-2/ 1-3-5-2; saber experimentar as tarefas e responsabilidades existentes na operacionalização dos sistemas; saber os pontos fortes e fracos de cada sistema; saber jogar contra outros sistemas que não o nosso

Vou debruçar-me então mais sobre os escalões de base. Segundo os vários autores, deve dar-se maior ênfase à dimensão técnica. Porém, também devem ser promovidas situações de jogo. O ensino deverá ser realizado de forma mais contextualizada possível, através de jogos condicionados, para que o nosso pequeno guarda-redes possa repetir o maior número de vezes possível os vários gestos técnicos. Apresento em seguida os diversos gestos técnicos do guarda-redes e as suas componentes críticas. 








Posição base

Cabeça deve encontrar-se erguida de forma a acompanhar a bola com o olhar, o tronco ligeiramente inclinado à frente, braços ligeiramente fletidos e à frente com as mãos à altura dos joelhos, pernas semifletidas e afastadas formando uma boa base de sustentação, os pés podem assumir duas posições: a) com toda a superfície plantar em contacto com o solo; b) apenas a parte anterior contacta com o solo (Ocaña, 1997)


Receção alta
Realizada acima da linha dos ombros, sempre à frente ou sobre o eixo longitudinal corporal, e com os braços estendidos. Esta ação técnica pode ser executada em salto ou em apoio e sempre com os polegares juntos (mãos em forma de concha)
Receção média
Realizada entre a linha dos ombros e a linha da cintura, as mãos situam-se no plano frontal para que o corpo constitua uma segunda barreira entre a bola e a baliza.
Receção baixa
Realizada entre a linha da cintura e solo, com um joelho fletido e apoiado no chão, o tronco fletido à frente e com os braços estendidos (procura juntar os antebraços).           
Receção em queda
Realizada, com qualquer superfície corporal em contacto com o solo (queda lateral) à exceção dos apoios plantares. Com os braços estendidos, flexão e abdução da perna que entra em contacto com o solo e dedos das mãos afastados. Para maior segurança, no final da ação técnica, levar a bola ao peito pressionando-a com os braços, antebraços e mãos. As mãos não devem estar sobrepostas.


Receção com encaixe
Reduz rapidamente a velocidade da bola através do contacto com desta contra o peito e simultânea pressão realizada pelos antebraços e mãos contra o seu próprio corpo


Desvios
São ações técnicas que consistem em modificar a trajetória e/ou sentido da bola, dando-lhe uma direção determinada com propósito defensivo. Os desvios podem ser classificados de acordo com a superfície de contacto com a bola, deste modo temos:
Desvio com a mão – realiza-se quando a bola descreve uma trajetória área, o contacto com a bola é precedido de um deslocamento frontal e nunca deve ser efetuado em apoio. Esta ação deve ser utilizada quando a receção da bola seja inadequada ou quando a sua posse não seja garantida.
Desvios com o pé


Saídas
quando o guarda-redes sai da sua área de proteção no sentido de intervir sobre a bola. A execução técnica da saída divide-se em dois momentos distintos:
a)    O deslocamento
b)    A intervenção sobre a bola. A bola encontra-se na posse do adversário que a conduz na direção da baliza. Na ação de condução de bola, diferencia-se dois momentos:
1)    Um em que a bola se encontra fora do controlo motor do atacante
2)    Outro em que o jogador está em contacto com a bola
No primeiro momento o guarda-redes deve intervir sobre a bola de forma rápida e decidida
Reposição
Reposição com o pé – é fundamental que o guarda-redes realize em simultâneo um deslocamento frontal e uma extensão completa do braço que lança a bola para o pé.
Reposição com a mão – É importante que o guarda-redes consiga estender o braço no momento do lançamento e que tenha uma excelente relação com a bola para que consiga dominá-la a uma só mão num movimento dinâmico.


Pontapé de baliza
com passe curto ou passe longo. Passe com o pé que pode ser curto quando a bola está controlada e se pretende jogar para perto ou então longo através de passe em vólei lateral ou frontal



Por fim, apresento a opinião de dois entendidos,

Wil Coort: "até aos escalões de infantis, a preocupação principal é o desenvolvimento da técnica do guarda-redes com a introdução gradual dos aspetos táticos, sobretudo em termos de posicionameto. No escalão de iniciados, os exercícios técnicos aumentam de complexidade e as questões táticas ganham mais peso."

Ricardo Peres: "nos escalões de Escolas e Infantis a capacidade de manipular a bola e a vivenciação do maior número de técnicas com exigências adaptadas à idade são aspetos muito importantes. Em termos táticos, a seleção da informação a ser passada terá de ser muito bem filtrada dadas as limitações em termos de compreensão das crianças."; "Se nos escalões mais jovens começamos por abordar a técnica e a tática de uma forma não tão complexa, fazendo as progressões que se exigem para uma aprendizagem tática e técnica, o psicológico também é fundamental abordarmos desde novos"  



domingo, 6 de janeiro de 2013

Futebol de Formação: um abismo metodológico...

O "treino da tática" e o "treino tático"...
... o "ensinar" e o "ajudar a aprender" o jogo!

Artigo de opinião de Raúl Oliveira


  • O treino dos jovens jogadores deverá ser mais do que uma simples cópia dos programas de treino aplicados a jogadores profissionais, os objetivos terão que ser obviamente diferenciados.
As conceções de futebol e de treino são tão variadas quanto o número de treinadores e jogadores que existem. Na minha opinião, nenhuma é certa ou errada, simplesmente, podem ser bem ou mal aplicadas ao contexto em que se inserem.

  • O treinador será tanto melhor quanto mais ajudar o jovem na sua formação, mas até mais decisivo do que isso será, na verdade, não ser um obstáculo ao seu desenvolvimento. 
Formar é diferente de formatar


Será que "as crianças de 10 anos são iguais em qualquer parte do Mundo"?
A resposta é evidente: "Não!". O meio/contexto social tem grande influência.

Ninguém nasce a querer ser futebolista... Isto é um processo que pode ser mantido/incutido ou não pelas pessoas/sociedade envolvente. 

São necessários programas específicos adaptados a cada realidade
  • A cópia de modelos formativos de sucesso de "outros mundos" resulta normalmente em tentativas frustrantes que terminam em fracasso
mas, independentemente destas condicionantes próprias, é possível pensar e refletir acerca da aplicação metodológica no processo de aprendizagem em futebol.


Periodização Tática
Erradamente associado a treino de complexidade nociva para jovens, castradora do seu desenvolvimento técnico e da sua liberdade criativa. A verdadeira essência desta metodologia relaciona-se com a simples capacidade de pensar, sem pensamentos não há real desafio e sem desafio a evolução está limitada. 

Treino da Tática vs Treino Tático
A tática entendida como uma organização estrutural e dinâmica dos jogadores durante um jogo de futebol tem o seu treino, muitas vezes, associado a situações estereotipadas de movimentos individuais, setoriais e coletivos que resultam em última instância na construção de uma circulação tática ou situação estratégica do jogo. 
Treinar este tipo de tática é, regularmente considerado um erro para as etapas primárias do processo de formação dos jogadores. Apesar disto, a insistência no uso de futebol 11 desde os escalões mais baixos leva a que isto aconteça com alguma frequência e seja encorajado pois tenta-se aproximar o jogo das crianças ao jogo dos adultos... 

O treino da tática acelera a obtenção de resultados e melhora a organização de jogo, mas assim aplicado, prinicipalmente nos escalões mais baixos, este é um substituto indesejado para os conteúdos essenciais do treino. É com este tipo de ideia que existe alguma resistência à introdução da periodização tática nos escalões de base do futebol. 
Experiências anteriores levam muitos a associar esta metodologia a um treino exaustivo de táticas complexas, a situações fixas e/ou condicionadas, a rigidez de movimentações, a falta de criatividade e espontaneidade. São preocupações legítimas pois a observação de vários treinos de equipas de topo do futebol profissional levam a conceber o trabalho tático como um treino mais parado com tarefas pré-definidas e missões muito específicas e como a tentação da cópia destes modelos, é sempre apelativa para alguns, este fenómeno poderia ser limitador para a evolução do jogador. 

O que é afinal um treino tático de acordo com os princípios de base da periodização tática?
Um bom treino tático não deixa de ter objetivos e aprendizagens técnicas, físicas e psicológicas, muito pelo contrário, tenta integrá-las. Cada exercício tem um impacto específico perfeitamente assimilável pelo jovem que não deve ser visto como apenas um recetor de informação. 

  • A redução dos exercícios ao domínio de uma única dimensão do jogo (qualquer que seja) ou a tentativa de somar aprendizagens desfasadas e desintegradas da realidade do jogo, não são princípios reconhecíveis da periodização tática. 
"O treino da tática" em muito pouco se assemelha com a ideia de um "treino tático". Este tipo de treino assenta num pressuposto fundamental: a capacidade de pensar o jogo, de atuar sobre tomadas de decisão específicas da modalidade e mais concretamente, do "nosso futebol".
A conceção de um treino orientado em função de objetivos táticos traz motivação, criatividade, desafio e competitividade. Não serão estes ingredientes fundamentais no treino de jovens? 

  • A capacidade de associar dimensões de jogo em exercícios simples que promovam não só a aprendizagem parcial de "partes de jogo" mas sim que o façam de uma forma integrada não desfasada da natureza fundamental do jogo é uma competência essencial que separa os treinadores melhores dos treinadores menos preparados. 

Se acreditarmos que o futebol é um jogo em que a correta tomada de decisão é tanto, ou até mais, decisiva que o simples domínio de gestos técnicos, capacidades e skills motores então quando será que devemos introduzir esta vertente na planificação do treino? 
Um bom treino tático nem precisa de estar, obrigatoriamente conetado a um sistema tático, a uma combinação tática complexa ou a um modelo de jogo (nomeadamente nos escalões mais baixos). O fundamental é respeitar um princípio de jogo, uma referência que sirva para nortear as ações individuais e/ou coletivas dos jogadores, no fundo, colocar os jogadores numa situação em que tenham que fazer escolhas/opções respeitando a essência do futebol que pretendemos "criar e desenvolver" um conjunto com os nossos jogadores. 

  • Nem todos os treinadores estão devidamente preparados para um tipo de treino com a complexidade inerente ao controlo de várias dimensões do jogo. Por vezes a separação das dimensões facilita o trabalho do treinador, no entanto, estes exercícios são claramente menos estimulantes para o jogador. 
Mas afinal quem disse que ser bom treinador é fácil?



  • Nunca negligenciar as dimensões técnica, física, psicológica, social, lúdica...
Todas elas são importantes no treino de jovens, a ideia será moldá-las sob "coordenação" de um princípio de jogo e necessariamente dentro de um contexto estimulante e pedagógico (o exercício de treino).

  • Ter um plano para a integração progressiva de conteúdo e objetivos não queimando etapas de formação e potenciando ao máximo o desenvolvimento de cada jogador a curto, médio e sobretudo, a longo prazo. 
Da mesma forma que a complexidade excessiva dificulta a aprendizagem, a falta dela cria desmotivação e estagnação. 

  • Seguir uma linha clara de desenvolvimento individual e coletivo dos jogadores e equipa, estimulando o individual num ambiente de conforto e suporte coletivo. A coerência na aplicação de exercícios de treino com objetivos complementares e evolutivos terá efeitos na facilitação da aprendizagem do jogador. A inteligência com que o treino é construído/reconstruído/adaptado/anulado se necessário, é a diferença fundamental  entre treinar bem e menos bem, nem sempre o que é bom no papel resulta no campo. 


Admitindo o uso de exercícios descontextualizados e com formas separadas, estes devem ser uma percentagem reduzida do tempo total de treino e sempre como um complemento para introduzir ou reforçar conteúdos. O núcleo central do treino tem que desenvolver o inteleto colocando-o a funcionar...

O "Ensinar" vs O "ajudar a aprender"

  • Uma das funções primárias do treinador de futebol será promover a autonomia e auto-regulação de jogadores e equipas. A busca de soluções não pode estar dependente das indicações permanentes do treinador pois no futebol atual a velocidade de decisão e execução faz toda a diferença, nomeadamente, se pretendermos chegar a um alto nível desportivo. 
  • Uma equipa capaz de autonomamente se adaptar às condicionantes, capaz de reagir a adversidades do jogo e, acima de tudo, capacidade de potenciar jogadores "pensantes", criativos e inovadores terão sempre que ser objetivos do processo de treino.
  • Nas etapas mais baixas o fundamental é não criar vícios, não especializar erradamente, não criar obstáculos para o futuro... Por alguma razão todos reclamam o "futebol de rua" como essencial e algo que faz cada vez mais falta.
  •  Dar respostas ajuda no rendimento imediato mas dar pistas influencia na busca de soluções a médio e longo prazo. As respostas são muito mais duradouras quando são vivenciadas e obtidas pelo próprio. Dar um peixe matará a fome por um dia, mas ensinar a pescar matará a fome para a vida, mesmo que custe um pouco mais... No fundo, uma Descoberta Guiada!

Aprende-se melhor quando o aluno está ativo durante todo o processo de ensino. A descoberta encoraja os jogadores a colocar questões, formular hipóteses e realizar experiências. 

É importante ter a noção de que a aprendizagem por descoberta pura não funciona, cria o caus e a anarquia, a aprendizagem é feita pela descoberta mas uma descoberta guiada sendo este o melhor método de promoção de aprendizagens em ambientes construtivistas.
O desafio de ensinar por descoberta guiada é saber quanto e que tipo de orientação dar e disponibilizar e ainda saber qual ou quais os resultados desejados. A orientação por parte do treinador é necessária para manter o foco da atenção nas competências a adquirir. Na aprendizagem pela descoberta guiada ganham importância a orientação, a estrutura e os objetivos a atingir.

A adoção deste método de ensino obriga à participação ativa do jogador no próprio processo de aprendizagem. Assim sendo o treinador deve:
  1. adequar o volume de conteúdos às capacidades dos jogadores
  2. estruturar os conteúdos de modo a facilitar a sua interiorização
  3. trabalhar os conteúdos em espiral, ou seja, devem ser trabalhados periodicamente com cada vez mais profundidade, para que os alunos modifiquem continuamente as representações mentais que vão construindo.  



  • Construir e dirigir exercícios que permitam tomadas de decisão diferenciadas, evitar facilitismo, tornando os exercícios em "desafios" para os jogadores, responder a perguntas com mais perguntas, parar o treino e colocar o jogador a analisar e avaliar as suas opções no momento, exigir sempre mais mas ser compreensivo com a falha, dar pistas para a solução de problemas e criar condicionantes indutoras nos exercícios são algumas das estratégias que podemos e devemos utilizar! 

O jogador de mais alto nível é aquele que consegue em situação de jogo, no meio das 3 opções que toda a gente identifica, escolher a opção número 4 e fazer com que ela resulte melhor que todas as outras... será que o jovem irá desenvolver esta capacidade se tiver o treinador constantemente a tentar "ensinar-lhe" a fazer "isto aqui" e "aquilo ali"?...

Então, mas se os jogadores devem decidir por si, qual o papel do treinador?
Parece-me claro que o jogador (fundamentalmente com bola), possam decidir em função do seu próprio entendimento do jogo mas isto não invalida que o treinador o possa "moldar" e subconscientemente o induza a tomar um certo tipo de opções.
Por que motivo os exercícios devem ser realizados em função de princípios de jogo e devem ter uma iminente compreensão e contexto tático?
No fundo é colocar o jogador na direção certa, dar as indicações certas mas deixar que seja ele a descobrir o caminho que mais lhe agrada e beneficia, o treinador tem a obrigação de não o deixar passar para o lado errado da estrada!

  • Criar o ambiente potenciador (exercício específico), dar instruções e objetivos, reforçar os princípios de jogo inerentes ao exercício, abrir um espaço para tentativa-erro, ir dando algumas ideias que possam ajudar na resolução dos problemas levantados, promover a discussão entre os jogadores acerca de estratégias para superar dificuldades, dar hipóteses (opções) de jogo se necessário e apenas em último caso, na eventualidade de nada resultar, dar as nossas soluções para a resolução de um determinado problema/situação de jogo.  
  • Cabe ao treinador preparar o "terreno", criar as condições ótimas de experimentação e orienta o jogador no sentido de ele vivenciar os problemas, as dúvidas e consequentemente encontrar as respostas desejadas. O treinador tem o papel fundamental de "ajudar a aprender", tirar dúvidas, colocar questões, reforçar estímulos, no fundo indicar o caminho certo... a longa e difícil caminhada até ao destino o treinador não pode fazer, essa só mesmo o jogador pode, mas quem lá chega vai com certeza, bem preparado... 
Resumindo,

O treinador tem que ser astuto e inteligente o suficiente para que os seus jogadores busquem soluções para novos problemas num ambiente lúdico e motivador. 
 


 
 


    



 



domingo, 2 de dezembro de 2012

Artigo de opinião


Portugal, País de fraca cultura desportiva, onde desporto é pouco mais do que futebol.
Hm... Pois, mas enganem-se todos aqueles que pensam que no futebol tudo está bem. A verdade é que o futebol português tem vindo a ter resultados extremamente positivos. Mais equipas presentes nas principais competições europeias, bons resultados daquela que é a nossa bandeira (seleção nacional de Futebol).

Mas não se avizinham bons ventos, pelo menos enquanto não se introduzirem novos pensamentos, novas ideologias.
E no capítulo da formação, posso dizer-vos que ainda está tudo por fazer!

São muito poucos os clubes e instituições que olham, pensam a formação como projeto a médio e longo prazo. Quem monta um clube, quer resultados para ontem, quando na realidade, os resultados ditam pouco mais do que, números, altamente manipulados que não traduzem, na maior parte das vezes, a real competência das crianças/jovens praticantes.
Todavia e infelizmente, ganhar é demasiado importante mesmo no escalões mais baixos...

Sim, estou a ser irónico...
A verdade é que não me lembro se o Figo, Rui Costa, Cristiano Ronaldo, Nani, Ricardo Quaresma, Simão, Bruno Alves, João Moutinho e tantos outros, foram alguma vez campeões no escalão de Benjamins, Infantis e Iniciados. Alguém se recorda?
Mas infelizmente, ganhar é demasiado importante mesmo nos escalões mais baixos...
Lembro-me de uma tal Associação Desportiva e Cultural da Adémia vencer alguns campeonatos distritais de Juvenis e Juniores (AFC) há 10 anos atrás. Mas alguém se recorda? Talvez os diretores dessa mesma instituição, mas o comum dos adeptos, apenas sabe que nessa Associação foi formado um dos atuais avançados do Sporting Clube de Braga e da seleção nacional. Estou a falar de Éder.

Hoje vive-se o futebol de formação da mesma forma como se vive o futebol-espetáculo-negócio-rendimento dos séniores.
Devemos tratar as crianças como mini-adultos?
Devemos colocar nas crianças essa pressão?
Devemos obrigar a criança a jogar nas mesmas formas jogadas dos adultos (11x11)?

Qual é a lógica?
Nós na escola primária aprendemos a tabuada, não aprendemos a Física e as Análises Matemáticas de alguns cursos do Ensino Superior. A criança-jogador não está preparada para um desafio tão ambicioso. Desta forma precisa de estímulos mais adequados, para que possa desenvolver a sua inteligência, para melhorar a sua perceção e compreensão do jogo.

 Os alunos desde tenra idade devem portanto ser estimulados a pensar e a terem as suas próprias iniciativas sem medo de errarem. Os formadores e treinadores devem criar as condições ótimas para que a criança-jogador possa desenvolver todas as suas potencialidades e tomar as suas decisões sem que estas sejam punidas caso delas não resulte a melhor solução.
Os alunos devem jogar num ambiente ótimo de aprendizagem, onde a liberdade e a descoberta guiada devem estar sempre presentes. Só assim o treinador promove o desenvolvimento da criatividade, autonomia e iniciativa.

Por isso, é importante que a criança possa jogar num ambiente sem treinador, sem árbitro, um pouco à imagem do futebol de rua de outrora, onde a criança descobria o jogo e aprendia a ser criativo.

A relação treinador-aluno não deve ser igual à relação médico-paciente. O médico prescreve. O treinador deve orientar, mas não deve nunca impor seja o que for.
Muitos campos de futebol são dominados por instrutores, o que leva a um reduzido desenvolvimento da criatividade/inovação dos seus atletas. Estes treinadores, com "resultadofobia" impõem o seu manual de soluções aos seus alunos, entregando-lhes os "quê's" e os "comos".
Estimulámos a criança-jogador a pensar?
Apresento-lhe a seguinte analogia:

Imaginem que o vosso filho está a fazer uma prova de Português, Matemática, Inglês ou outra disciplina qualquer. Este momento servirá para apurar as aprendizagens do vosso filho a uma determinada temática.
Se o aluno for autónomo, ele
irá errar e iremos apurar o seu verdadeiro conhecimento. (É evidente que pode haver outras variáveis: concentração, ansiedade, etc).
Então mas o que acontecerá se este aluno tiver a ajuda do professor? O que acontecerá se o professor lhe comunicar algumas/todas as respostas, ele irá estar muito mais próximo da perfeição no momento, mas certamente que chegaremos à conclusão de que as aprendizagens por ele realizadas, nunca vão ser as mesmas...
O treinador deve portanto dar liberdade a todos alunos para que possam descobrir as melhores decisões para cada contexto e situação. 

Mas como é possível explicar tal conceito a um País sem cultura desportiva, que não consegue dissociar entre uma criança e um adulto? 
Como é possível tudo isto se para o comum do espetador a postura observadora e de análise do técnico/treinador/formador é interpretada como falta de motivação ou incompetência.


Ora, o problema é cultural e popular...
Mas do popular também bebemos o seguinte provérbio:
"não dês o peixe, dá antes uma cana e ensina-lhe a pescar!"


 
Extinto este incêndio da falta de liberdade e da falta de iniciativa, penso que estarão reunidas as condições para tentarmos perceber a relação direta entre desenvolvimento da técnica e desenvolvimento da inteligência.
O Futebol atual é um jogo dotado de enorme imprevisibilidade, um ritmo acelerado que requer dos jogadores um empenho permanente para tomarem decisões. São exigências elevadas que obrigam os jogadores a observarem, processarem e avaliarem as situações, e ao mesmo tempo elegerem a melhor solução para surpreender o adversário tanto técnica, quanto taticamente. 
Para a concretização da ação é exigida uma elevada capacidade de leitura de situações e tomada de decisão instantânea, mais, é necessário que da leitura da situação seja "escrita" a solução. Por isso, quanto mais recursos motores específicos o jogador possui ou desenvolve, maior é a probabilidade de obtenção de sucesso na ação de "escrever" a solução. 
A técnica é portanto um fator decisivo que permite aos melhores executantes desempenhos superiores em situações de jogo. Os jogadores com repertório mais amplo têm uma maior variabilidade técnica e poderão alcançar no futuro níveis excelentes de rendimento desportivo.
Ainda assim, neste capítulo é importante destacar que o ensino não se pode transformar em uma aprendizagem mecânica de gestos técnicos, restringindo-se às componentes biomecânicas da execução, mas, sobretudo, à escolha e ajuste do gesto à situação que se apresenta, uma vez que o contexto será relevante para o aprendizado.
O que se pretende a partir dessa ideia é que a aprendizagem das habilidades técnicas seja parte integrante de contextos com tomada de decisão, onde o que importa está contido na situação de jogo. Só assim os praticantes serão capazes de resolver os problemas que o contexto específico lhes coloca.

O que devemos melhorar e como devemos fazê-lo?

Especificidade!


Fases do ensino do jogo

"O jogo de futebol é uma realidade complexa porque o jogador tem que, a um tempo, relacionar-se com a bola e referenciar a sua situação no terreno de jogo, a posição dos colegas, dos adversários e das balizas. Devido a esta complexidade, impõe-se que o seu ensino seja gradual: do conhecido para o desconhecido, do fácil para o difícil, do menos para o mais complexo. Até chegar aos problemas do jogo formal, há que resolver um conjunto de situações passíveis de hierarquização, em função da estrutura dos elementos de jogo: jogador, bola, balizas, colegas e adversários.

Somos portanto apologistas dum ensino do Futebol referenciado a fases evolutivas, ou etapas, que permitam integrar tarefas e objetivos de complexidade crescente. Todavia, a necessidade de dividir o ensino em fases não deve conduzir à divisão do jogo em elementos (passe, condução de bola, remate, etc.), mas antes à sua estruturação em unidades funcionais.

Fase 1: construção da relação com a bola
Fase 2: consciencialização dos alvos (balizas)
Fase 3: construção da noção de oposição
Fase 4: construção da noção de cooperação

Construção das situações de ensino e treino

Deverá ser solicitada e estimulada a adaptabilidade em situações simultaneamente ajustadas ao nível de desenvolvimento do praticante e às exigências do jogo.
É aconselhável que se recorra a um conjunto de variáveis, cuja utilização permite induzir transformações na configuração dos exercícios, bem como nos comportamentos e atitudes dos jogadores. Algumas dessas variáveis podem ser: bolas (com diferentes tamanhos), balizas (com diferentes dimensões), espaço de jogo (adequado às caraterísticas dos praticantes), número de jogadores (formas jogadas adaptadas), regras, outras... "
Garganta, J. (2002) - Universidade do Porto, Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física
 



Direto e objetivo!

O real problema da formação desportiva
"Os problemas nesse processo surgem quando o treino e a participação competitiva de crianças e jovens tendem a reproduzir e a adaptar os conhecimentos e as formas de organização do desporto de alto rendimento, quando a valorização e o reconhecimento social dos mais jovens se preceituam através dos resultados competitivos e quando a vitória nas competições continua a ser o objetivo principal para muitos treinadores, dirigentes e pais. 
Nesses casos há uma reversão lógica da formação, porque a procura do rendimento imediato impõe estratégias de treino que produzem resultados em curto prazo, comprometem os resultados futuros e frustram expetativas de crianças e jovens."
By Costa, I., Greco, P., Garganta, J., Costa, V., Mesquita, I. (2010) , Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Enhancing coach-parent relationships in youth sports; Increasing harmony and minimizing hassle

Smoll, F.L.; Cumming, S.P. and Smith, R.E. - University of Washington, Seattle, USA - International Journal of Sports Science & Coaching, volume 6, Number 1, 2011

"Research has shown that parents not only influence children's socialization into sport, but they have a profound impact on the psychological consequences that accrue.
(...)
The coach-parent-athlete triad has been referred to as the "athletic triangle". The members of thos social system interact with one another in complex ways, and the nature of those interactions can have significant consequences for the psychological development of the child. Indeed, coaches are in a position to channel parents genuine concerns and good intentions in a way that heightens the value of athletes sport experiences. Furtherm parents can influence the quality of the dyadic coach-athlete relationship, as defined by feelings of closeness, commitment, and complementarity.

The purpose of this article is to assist coaches in working effectively with parents, thereby increasing the harmony and minimizing of
i) the difference between youth and professional models of sport,
ii) the goals of youth sports, including a healthy philosophy of winning,
iii) parental responsabilities and challenges,
iv) how to achieve effective two-way communication with parents,
v) how to organize and conduct sport meetings with parents.

i) Development vs Professional Models of Sport

Youth sports provide an educational medium for the development of desirable physical and psychosocial characteristics.
In contrast, professional sports are an explicitly commercial enterprise. Their goals, simply stated, are to entertain and, ultimately, to make money. Financial sucess is of primary importance and depends heavily on a product orientation, namely, winning. Is this wrong? Certainly not! Professional sports are part of the entertainment industry, and as such, they are enormously valued on a worldwise basis.
What, then, is the problem? Most of the negative consequences of youth sports occur when adults erroneously impose a professional model on what should be a recreational and educational experience for youngsters - the so called "profesionalization" of youth sports. When excessive emphasis is placed on winning, it is easy to lose sight of the needs and interests of the young athlete.

ii) Objetives of youth sports

Participation in youth sports can yield many benefits. Some of them are physical, such as acquiring sport skills and increasing health and fitness. Others are psychological, such as developing leadership skills, self-discipline, respect for authority, competitiveness, cooperativeness, sportsmanship, and self.confidence. Youth sports are also an important social activity in which children can make new friends and acquaintances and become part of an ever-expanding social network.
Furthermore, the involvement of parents in the athletic enterprise can serve to bring families closer together and strengthen family unity. Finally, of course, youth sports are (or should be) just plain fun!
The basic right of the young athlete to have fun participating should not be neglected. One of the quickest ways to reduce fun is for adults to begin treating children as if they were professional athletes. Coaches and parents alike need to keep in mind that young athletes are not miniature adults. They are children, and they have the right to play as children. Youth sports are first and foremost a play activity, and youngsters deserve to enjoy sports in their own way.
What about winning? The common notion in sports equates sucess with victory. However, with a "winning is everything" philosophy, young athletes may lose opportunities to develop their skills, to enjoy participation, and grow socially and emotionally. Well informed coaches realize that sucess is not equivalent to winning games, and failure is not the same as losing. Rather, the most important kind of sucess comes from striving to win and giving maximum effort. The only thing athletes can control is the amount of effort they give.
An effort-oriented philosophy of winning is one of the core principles underlying the creation of a mastery motivational climate - a learning environment that emphasizes skill development, personal and team sucess, maximum effort, and fun.

What about the objectives that young athletes seek to achieve? A survey of more than 100 000 youth sport participants in the state of Michigan indicated that young athletes participated for the following reasons (listed in the order og their importance):
a) to have fun
b) to improve skills and learn new skills
c) for thrills and excitement
d) to be with friends or make new friends
e) succeed or win

Coaches, parents and sport administrators should be part of a team trying to accomplish common goals. By working together to reduce chances of misunderstanding and problems, the objectives can be attained. In this regard, parents should be encouraged to view their involvement in youth sports as an integral part of their child-rearing responsabilities.

iii) Parents responsabilities and challenges

To begin with, parents must realize that children have a right to choose not to participate.
Children should not be pressured, intimidated, or bribed into playing. Athletes who feel "entrapped" report less enjoyment, lower intrinsic motivation and benefits of being involved in sports, and are more likely to drop out of sports. Parents should counsel their children, giving consideration to the sport selected and the level of competition at which the children want to play. And, of course, parents should respect their children's decisions.
For those children who wish to direct their energies in other ways, the best program may be no program. Many parents become unnecessarily alarmed if their child does not show an interest in sports. They think that a child who would rather do other things must somehow be abnormal. But forcing a child into sports against his or her will can be a big mistake. Sometimes the wisest decision is to encourage the child to move into other activities that may be more suited to his or her interests and abilities, at least until an interest in sports develops.

The reversed-dependency phenomenon
Parents often assume an extremely active role in youth sports, and in some instances, their influence becomes an important source of children's stress.

Coaches may be able to counteract this tendency by explaining the over-identification process to parents. They can tell parents that placing excessive pressure on children can decrease the potential of sports for enjoyment and personal growth. A key to reducing parent-produced stress is to impress on parents that youth sport programs are for young athlets and that children and youth are not adults.

Commitments and Affirmations
The following questions serve as important reminders of the scope of parents responsabilities - questions to which parents must honestly answer "Yes".
- Can parents share their son or daughter?
This requires putting the child in the coach's charge and trusting him or her to guide the sport experience. It involves accepting the coach's authority and the fact that the coach  may gain some of the admiration and affection the childe once directed solely at the parent. This commitment does not mean that parents cannot have input, but the coach is the boss!
- Can parents accept their childs disappointments?
Every child athlete experiences "the thrill of victory and the agony of defeat" as part of the competition process. This may mean not being embarrassed, ashamed, or angry when their son or daughter cries after losing a contest. When an apparent disappointment occurs, parents should be able to help their children learn from the experience.
- Can parents show their child self-control?
Parents should be reminded that they are important role models for their children's behavior. Coaches can hardly be expected to teach sportsmanship and self-control to youngsters whose parents obviously lack these qualities.
- Can parents give their child some time?
Parents need to decide how much time can be devoted to their children's sport activities. Conflicts arise when they are very busy yet are also interested and want to encourage their children.
- Can parents let their child make his or her own decisions?
Coaches should encourage parents to offer suggestions and guidance about sports, but ultimately, within reasonable limits, they should let the child go his or her own way. All parents have ambitions for their child, but they must accept the fact that they cannot dominate their child's life.

Conduct at sport events
As part of their responsabilities, parents should watch their children compete in sports. But their behavior must meet acceptable standards. In addition to acknowledging some obviously inappropriate actions, the following rules for parental behavior (do's and don'ts) have recommended:

1. Do remain in the spectator area during the event
2. Don't interfere with the coach
3. Do express interest, encouragement, and support to young athletes. Communicate repeatedly that giving total effort is all that is expected.
4. Don't shout instructions or criticisms to the children
5. Do lend a hand when a coach or official asks for help.
6. Don't make abusive comments to athlets, parents, officials, or coaches of either team.

iv) Two-way communication

Parents have both the right and the responsability to inquire about all activities that their children are involved in, including sports. For this reason, coaches should be willing to answer questions and remain open to parent's input. If coaches keep the lines of communication open, they will be more likely to have constructive relations with parents.
Fostering two-way communication does not mean that parents are free to be disrespectful toward coaches in word or action. Rather, it is an open invitation for parents to express their genuine concerns with the assurance that they will be heard by the coach.
Coaches should tell parents what times and places are best suited for discussions.

In establishment good relations with parents, coaches should be aware that most parents are really enthusiastic and have a true concern for their children. Sometimes, however, parents simply do not realize the trouble they are causing.

Desinterested parents
The most noticeable characteristic of desinterested parents is their absence from team activities to a degree that is upsetting to their child.
What coaches should do: Coaches should find out why the parents do not participate and contribute, and let them know that their involvement is welcome. Coaches should avoid the mistake of misjudging parents who are actually interested but have good reasons (work, sickness, etc.) for missing activities.

Overcritical parents
Such parents are never quite satisfied with their child's performance. They give the impression that it is more "their" game than it is the athlete's.
What coaches should do: as discussed earlier, some parents unconsciusly relate the sucess or failure of  their child with their own success or failure. They can explain how constant criticism can cause stress and emotional turmoil for their youngster - irritation that actually hinders performance. They can tell the parents why they prefer to use praise and encouragement to motivate and instruct young people, and how parents can do the same.
What coaches can say: "Mr.Jones, I know you're only trying to help Nathan, but when you criticize him, he gets so nervous that he plays worse, and that certainly takes any fun out of it for him." or "Mr.Jones, I've found that Nathan responds much better to encouragement and praise than he does to criticism. If you were to encourage your son instead of criticizing him so much, sports would be a lot more enjoyable for both of you."

Parents who scream from behind the bench
They frequently rant and rave and virtually drown out everyone else speaking in the area, including the coach. Everyone is the target for their verbal abuse - team members, opponents, coaches, officials.
What coaches should do. During a break in the contest (half time, between periods), coaches can calmly, tactfully, and privately point out to the person that such yelling is a poor example for the young athlets. Coaches can ask other people to help out by working with this person during games. Also, coaches can give the disruptive parent a job that will help the team (scouting opponents, keeping stats, looking agter equipment, etc.).
What coaches can say: "I know it's easy to get excited, but these kids are out here to have a good time. Try not to take the game so seriously, okay?" or "Listen, why don't we get together after the game and you can give me some of your ideas on coaching. I'd rather have them afterward because during the game, they're very confusing."

Sideline coaches
Parents who assume the role of sideline coaches are often found learning over the bench making suggestions to athletes. They may contradict the coach's instructions and disrupt the team.
What coaches should do: Again, coaches should not confront such a parent right away.
Coaches should advise their athletes that during practices and games they are coach and they want the athletes full attention. Listening to instructions from others may become confusing.
What coaches can say: "Ms. Slavin, I appreciate your concern and enthusiasm for the team. But when you are coaching Isla from the sidelines, it becomes confusing and distracting to her. I know you've got some good ideas, and i want to hear them. But please, after the game."

Overprotective parents
Most often, over-protective parents are mothers of the athletes. Such parents are characterized by their worried looks and comments whenever their son or daughter is playing. Overprotective parents frequently threaten to remove their child because of the dangers involved in the sport.
What coaches should do: Coaches must try to eliminate the fear of injury by reassuring the parent that the event is fairly safe. They can explain the rules and equipment that protect the athlete.
What coaches can say: "Ms.  Smith, we try to make the game as safe as possible for the athletes. You've got to remember that i wouldn't be coaching kids if i didn't care about them or if i thought the sport was dangerous for them." ir "Ms. Smith, I care about each one of these kids, and i would never let any of them do anything that i thought would endanger them."

v) The Coach-Parent meeting

However, successful coaches are aware of the importance of securing the aid and support of well-informed parents. Rather than facing the task of dealing with problem parents, a pre-season meeting is the key to reducing the chance of unpleasant experiences. In other words, having a coach-parent meeting is well worth the additional time and effort.

Purpose of the meeting
The objectives of a coach-parent meeting are to:
a) improve parents understanding of youth sports,
b) gain their cooperation and support

Planning and preparation
Coaches who have held meetings with parents indicate that it is not an overtaxing experience, and the benefits make the meeting a good investment.
However, the importance of being well prepared and organized cannot be overemphasized.

Content and conduct of the meeting
The coach can do this by:
a) encouraging parents to ask questions
b) directing questions to them from time to time
Also, in creating an open atmosphere for exchange, it is very important to show respect for the parents. They should feel that they are a contributing part of the meeting, rather thar a mere audience.

Opening: Let them know that their interest and concern are appreciated. The coach can point out that they are taking an important step toward assuring a quality sport experience for their children. Next, the coach establishes credibility by giving pertinent background information.
 The coaches tells parents about his or her experience in the sport, experience as a coach, and special training that he or she has had. Finally, the coach points out the purposes of the meeting and tells prents how he or she will provide information about fundamentals of the sport.
 To gain respect, coaches must show confidence in leading the session.

Objectives of Youth Sports: A discussion of the objectives of childrens's athletics, including a mastery-oriented philosophy of winning, should follow the opening remarks. The coach should focus on those goals and values that are a major part of his or her coaching. As pointed out earlier, if coaches and parents work together to reduce misunderstandings, the objectives can be achieved.

Details of the Sport Program: Presenting details about the operation of the sport program is another valuable part of the session. In so doing, consideration should be given to the following:
a) equipment needed and where it can be purchased,
b) sites and schedules for practices and contests,
c) lenght of practices and contests,
d) team travel plans,
e) major team rules and guidelines,
f) special rule modifications to be used at this level of competition,
g) medical examinations,
h) insurance,
i) fund-raising projects
j) communication system for cancellations and so on,
k) midseason and postseason events.

Coaching Roles and Relationships: Parents will benefit from knowing about the coach's leadership style. The coach should encourage parents to reinforce this approach in interactions with their children.

Parents Responsabilities and Challenges: Informing parents about the responsabilities the coach expects them to fulfill is the most important part of the meeting.
The coach should discuss the following topics:
1) Dangers of the reversed-dependency phenomenon
2) Parent commitments and affirmations
3) Rules of conduct at sports events

Coach Parent relations: Should let the parents know what times and places are best suited for discussions

The parents will appreciate the honesty!

And, finally, at the end of the meeting, the coach should thank the parents again for attending.
The coach.parent meeting is a vitally important tool for developing parent involvement and support. A successful meeting will help solidify the athletic triangle (the coach-parent-athlete triad) and lead to positive youth sport experiences.






quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Competências no ensino e treino de jovens futebolistas

Garganta, J. (2002) - Universidade do Porto, Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física

"O praticante deve saber o que fazer, para poder resolver o problema subsequente, o como fazer, seleccionando e utilizando a resposta motora mais adequada. Isto exige que os praticantes possuam uma adequada capacidade de decisão, que decorre duma ajustada leitura do jogo, para poderem materializar a ação através de recursos motores específicos, genericamente designados por técnica.

As técnicas constituem ações motoras especializadas que permitem resolver as tarefas do jogo. (Garganta, 1997)

Tem-se verificado uma obsessão pelos aspetos do ensino/aprendizagem centrados na técnica individual (Bonnet, 1983), partindo-se do princípio que a soma de todos os desempenhos individuais provoca um apuro qualitativo da equipa e também que o gesto técnico aprendido duma forma analítica possibilita uma aplicação eficaz nas situações de jogo.
Os processos de ensino e treino têm constituído em fazer adquirir aos praticantes sucessões de gestos técnicos, empregando-se muito tempo no ensino da técnica e muito pouco ou nenhum no ensino do jogo propriamente dito (Gréhaigne & Guillon, 1992).

Bunker & Thorpe (1982) constataram que quando a técnica é abordada através de situações que ocorrem à margem dos requisitos táticos, ela adquire um transfer diminuto para o jogo.

A verdadeira dimensão da técnica repousa na sua utilidade para servir a inteligência e a capacidade de decisão tática dos jogadores e das equipas. Um bom executante é, antes de mais, aquele que é capaz de seleccionar as técnicas mais adequadas para responder às sucessivas configurações do jogo. Por isso, o ensino e o treino da técnica no Futebol, não devem restringir-se aos aspetos biomecânicos, mas atender sobretudo às imposições da sua adaptação inteligente às situações de jogo. Nesta perspetiva, é mais importante saber gerir regras de funcionamento, ou princípios de ação, do que utilizar técnicas estereotipadas ou esquemas táticos rígidos e pré-determinados (Garganta, 2001).


Importa que os praticantes assimilem um conjunto de princípios que vão do modo como cada um se relaciona com o objeto do jogo (bola), até à forma de comunicar com os colegas e contra-comunicar com os adversários, passando pela noção de ocupação racional do espaço de jogo (Garganta & Pinto, 1994)

O desenvolvimento da capacidade para jogar implica um desenvolvimento de "saberes", saber o que fazer (conhecimento declarativo) e saber executar (conhecimento processual).

Atualmente, os especialistas defendem a utilização de uma pedagogia de situações-problema, a qual representa um prolongamento lógico dos modelos de ação motora inspirados nas ciências cognitivas e nos modelos sistémicos. Assim, pode dizer-se que se assiste a uma transição dos modelos analíticos para modelos sistémicos.

Referências fundamentais para o ensino do Futebol

Condicionantes Estruturais e Funcionais
Dimensão do terreno de jogo e número de jogadores
Quanto maior o espaço de jogo, mais elevada terá de ser a capacidade para o cobrir mental e fisicamente.
O desenvolvimento da progressiva extensão do campo perceptivo (da visão centrada na bola...à visão centrada no jogo) é um dos aspetos mais importantes a que se deve atender na formação, na medida em que o jogo de Futebol reclama uma atitude tática permanente.
Esta é uma das muitas razões pelas quais se torna aconselhável que, nas fases iniciais quando o praticante tem dificuldade em controlar a bola, o jogo seja aprendido num espaço mais reduzido e com um menor número de jogadores (7 ou 5, p.ex). Neste contexto teoricamente menos complexo, o principiante tem mais e melhor acesso à progressiva compreensão das linhas e força do jogo e bem assim a um melhor entendimento e cumprimento dos princípios e regras de gestão do jogo
Duração do jogo
Séniores: O tempo de jogo estabelecido para uma partida de Futebol de onze são 90 minutos. O tempo de jogo efetivo são apenas 50 minutos. Durante este tempo, cada equipa poderá estar na posse de bola, em média, 25 minutos e cada jogador entre 30 segundos (defesas centrais) e um máximo de 3 minutos (para os condutores de jogo). Durante todo o restante tempo os jogadores seleccionam informações, analisam-nas e tomam decisões (Bauer & Umberle, 1988; Gréhaigne, 1992)
Controlo da bola
A aprendizagem do jogo de Futebol implica a construção da maestria da relação com a bola, em função das exigências táticas do jogo.
É importante que quando um jogador erra, o treinador consiga identificar se o erro ficou a dever-se a uma deficiente leitura da situação (mecanismo perceptivo e de decisão mental), ou se deriva da sua ineficiência técnica ou física para responder a tal situação.
Frequência da concretização
A relação entre as ações de ataque e êxitos quantificáveis é apenas de 50 para 1.
Estas constatações não devem conduzir a uma diminuição da importância atribuída à finalização no ensino/treino do Futebol. Bem pelo contrário, dever-se-á propiciar a criação de um grande e variado número de ocasiões de finalização, quando não o praticante perde de vista o objetivo central do jogo (o golo) e centra a sua atuação ao nível do jogo de transição, provocando um desequilíbrio entre o jogo indireto e o jogo direto.
Colocação dos alvos
Terreno de jogo
Para além das marcações regulamentares, assinaladas no terreno de jogo, existem outras referências importantes para que os jogadores nas diferentes fases (ataque e defesa), respondam aos imperativos do jogo, respeitando os princípios ofensivos e defensivos.
Estas zonas ou áreas, não assinaladas fisicamente no terreno, podem ser perspetivadas:
a) longitudinalmente, ou à largura do terreno de jogo, sendo normalmente designadas por corredores (1 corredor central, situado no eixo da baliza atacada - baliza defendida; 2 corredores periféricos ou laterais, contíguos ao corredor central, um do lado esquerdo outro do lado direito);
b) transversalmente, ou ao comprimento do terreno de jogo, sendo habitualmente designadas por setores (defensivo, médio e ofensivo).

Princípios de jogo
Os princípios de jogo constituem um conjunto de normas que orientam o jogador na procura de soluções mais eficazes, nas diferentes situações de jogo, pelo que são também referenciais muito importantes para o ensino e treino do futebol.
Na fase de ataque, quando a equipa tem a posse da bola e procura criar situações de finalização e marcar golo; e a fase de defesa, quando a equipa não tem a posse da bola e tenta impedir a criação de situações de finalização e a marcação do golo, procurando apoderar-se dela.

O êxito do ataque e da defesa exige uma coordenação precisa das ações dos jogadores, segundo princípios gerais e princípios específicos

Condicionantes pedagógicas

As estratégias mais adequadas para ensinar o jogo passam por interessar o praticante, recorrendo a formas jogadas motivantes, implicando-o em situações problema que contenham os ingredientes fundamentais do jogo, isto é, presença de bola, oposição, cooperação, escolha e finalização. De acordo com este entendimento, não são de adotar situações que preconizem a exercitação descontextualizada e analítica dos gestos técnicos (passe, remate, drible, etc.), dado que a execução assim realizada assume caraterísticas diferentes daquela que ocorre no contexto aleatório do jogo. O jogo é uma unidade e, como tal, o domínio das diferentes técnicas (passe, condução, remate, etc.), revelado pelos praticantes, embora se constitua como um instrumento sem o qual é muito difícil jogar e impossível jogar bem, não permite necessariamente o acesso ao bom jogo.
Para que o bom jogo possa acontecer com uma dinâmica que favoreça a evolução do indivíduo que joga, deve propôr-se ao praticante um jogo relativamente acessível, isto é, com regras simples, com menos jogadores e num espaço mais pequeno, de modo a permitir: a perceção das linhas de força do jogo (bola, terreno, adversários, colegas), muitos e diversificados contactos com a bola, a continuidade das ações e várias possibilidades de concretização.

Fases do ensino do jogo

O jogo de futebol é uma realidade complexa porque o jogador tem que, a um tempo, relacionar-se com a bola e referenciar a sua situação no terreno de jogo, a posição dos colegas, dos adversários e das balizas. Devido a esta complexidade, impõe-se que o seu ensino seja gradual: do conhecido para o desconhecido, do fácil para o difícil, do menos para o mais complexo. Até chegar aos problemas do jogo formal, há que resolver um conjunto de situações passíveis de hierarquização, em função da estrutura dos elementos de jogo: jogador, bola, balizas, colegas e adversários.

Somos portanto apologistas dum ensino do Futebol referenciado a fases evolutivas, ou etapas, que permitam integrar tarefas e objetivos de complexidade crescente. Todavia, a necessidade de dividir o ensino em fases não deve conduzir à divisão do jogo em elementos (passe, condução de bola, remate, etc.), mas antes à sua estruturação em unidades funcionais.

Fase 1: construção da relação com a bola
Fase 2: consciencialização dos alvos (balizas)
Fase 3: construção da noção de oposição
Fase 4: construção da noção de cooperação


Construção das situações de ensino e treino

Deverá ser solicitada e estimulada a adaptabilidade em situações simultaneamente ajustadas ao nível de desenvolvimento do praticante e às exigências do jogo.
É aconselhável que se recorra a um conjunto de variáveis, cuja utilização permite induzir transformações na configuração dos exercícios, bem como nos comportamentos e atitudes dos jogadores. Algumas dessas variáveis podem ser: bolas (com diferentes tamanhos), balizas (com diferentes dimensões), espaço de jogo (adequado às caraterísticas dos praticantes), número de jogadores (formas jogadas adaptadas), regras, outras...


Resumindo:
1. o ensino do Futebol é o ensino do jogo!;
2. deve cultivar-se no praticante de Futebol uma atitide tática permanente;
3. o desenvolvimento da capacidade de controlo da bola exige a criação de condições de exercitação que passam pela necessidade do praticante efetuar contactos frequentes e diversificados com a bola;
4. Se o número de jogadores a referenciar num jogo for elevado e se a isso adicionarmos um terreno de jogo com grandes dimensões, a perceção das linhas de força do jogo torna-se mais complexa, dificultando o acesso a níveis de jogo superiores;
5. No caso dos principiantes, se as situações de ensino e treino do Futebol não propiciarem a criação de várias ocasiões de finalização, o jogador perde de vista o objetivo central do jogo (o golo) e fixa a sua atuação quase exlusivamente ao nível do jogo de transição, o que conduz a um uso e abuso do jogo indireto em detrimento do jogo direto.
6. A situação 3x3 revela-se como a estrutura mínima que garante a essência do jogo, na medida em que reúne o portador da bola e dois recebedores potenciais, permitindo passar duma escolha binária a uma escolha múltipla, preservando assim a noção importante de jogo sem bola. Do ponto de vista defensivo, reúne um defensor direto ao portador da bola (1º def.) para realizar a contenção e dois defensores (2º e 3º) relativamente mais afastados do portador da bola, para concretizarem eventuais coberturas, dobras e compensações, respeitando os restantes princípios defensivos: cobertura, equilíbrio e concentração.
7. As posições por nós sustentadas conduzem à ideia de que, no ensino do Futebol, deve propôr-se ao principiante um jogo acessível, isto é, com regras ajustadas, com número de jogadores e espaço adequados, de modo a permitir a continuidade das ações, o domínio percetivo do espaço, uma frequente participação dos jogadores e variadas possibilidades de finalização."



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Inteligência e conhecimento específico em jovens futebolistas de diferentes níveis competitivos

Costa, J.C.; Garganta, J.; Fonseca, A.; Botelho, M. - Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física - Universidade do Porto

Este estudo visa avaliar e comparar a inteligência geral e o conhecimento específico do jogo em jovens praticantes de Futebol segundo o nível competitivo.
Será que os jogadores que possuem maior inteligência geral evidenciarão um maior nível de conhecimento específico da sua modalidade? E relativamente à performance desportiva, poderá um melhor conhecimento do jogo contribuir, de alguma forma, para um nível de rendimento superior?

"Os jogos desportivos coletivos (JDC) caraterizam-se pela aciclicidade técnica, solicitações morfológico-funcionais diversas e intensa atividade psíquica, num contexto permanentemente variável, de cooperação-oposição, com uma importância capital dos aspetos estratégico-táticos, onde a tomada de decisão precede a execução.
Os inúmeros problemas surgidos no jogo obrigam o jogador a decidir e selecionar qual a solução mais consentânea com a situação, obedecendo aos princípios gerais do jogo através do conhecimento que possui do jogo. Os jogadores têm que saber o que fazer, para depois selecionar como fazer, utilizando a ação motora mais adequada ao problema. Assim, sem conhecer a essência do jogo e dos seus princípios táticos, não se pode aproveitar na plenitude os recursos técnicos.

Assim, o sucesso nos jogos táticos depende largamente do nível de desenvolvimento das faculdades percetivas e intelectuais dos atletas, especialmente em associação com outros fatores que determinam a performance.

Segundo Rink, French & Tjeerdsma e Garganta, no jogador experiente nos jogos desportivos, constata-se que a nível cognitivo ele possui:
1. conhecimento declarativo e processual mais organizado  e estruturado
2. processo de captação de informação mais eficiente
3. processo decisional mais rápido e preciso
4. mais rápido e preciso reconhecimento dos padrões de jogo (sinais pertinentes)
5. superior conhecimento tático
6. uma maior capacidade de antecipação dos eventos do jogo e das respostas do oponente
7. superior conhecimento das probabilidades situacionais (evolução do jogo).

Ao nível da execução motora evidenciam:
1. elevada taxa de sucesso na execução das técnicas durante o jogo
2. maior consistência e adaptabilidade nos padrões de movimento
3. movimentos automatizados, executados com superior exonomia de esforço
4. superior capacidade de deteção de erros e de correção de execução

Para Konzag, os desportistas com um elevado nível de desempenho em situação de jogo, possuem processos cognitivos de alto nível, nos quais a receção e elaboração das informações são mais rápidas e mais precisas.


Para a performance desportiva são destacados pela literatura dois tipos de conhecimento: o conhecimento declarativo e o conhecimento processual. Estes dois tipos de conhecimento diferenciam-se, sendo o "conhecer que" ou o conhecimento declarativo e o "conhecer como" ou conhecimento processual.
Segundo Thomas, French & Humphriest, o conhecimento declarativo pode ser definido como o conhecimento do regulamento da modalidade, aspetos das posições dos jogadores, estratégias básicas de defesa e ataque, enquanto o processual se refere às ações no decorrer do jogo.
Por outro lado, o conhecimento processual constitui a realização dum comportamento que dificilmente explicamos.

Alves e Araújo acrescentam que quanto mais complexas as decisões, mais os expertos se distinguem dos iniciados.
Segundo eles, a qualidade de decisão do atleta depende ainda do seu conhecimento declarativo e conhecimento processual específicos, das suas capacidades cognitivas e da competência da sua utilização.

Segundo Chi & Glaser, o conhecimento específico de uma determinada área tem importância decisiva na solução efetiva dos problemas que essa área de atividade apresenta, razão pela qual alguns estudos recentes têm incidido nas interações entre inteligência e conhecimento.

Neste estudo em particular, foram escolhidos dois grupos de praticantes, ambos sub-16 e sub-17. Um dos grupos (22 elementos) compete num nível competitivo superior, no Campeonato Nacional de Juniores B e treinam 6 horas semanais. O outro grupo (22 elementos) compete num nível competitivo inferior, no Campeonato Distrital da AFPorto e treinam 4,5 horas semanais. Ambas as equipas são da mesma área geográfica.

Para os testes de inteligência geral observou-se que o grupo que compete a nível inferior obteve melhores resultados. Mas nos testes de conhecimento específico foi o grupo que compete a nível superior que obteve melhores resultados.

Quanto a saber se os jogadores mais inteligentes noutras áreas do conhecimento também o são no desporto, a resposta encontrada aponta para que tal não se verifique

Conforme sustentam Williams & Davids, o conhecimento específico pode ser mais um requisito do que uma aquisição prática através da exercitação. Em estudo com futebolistas experientes, concluíram que o conhecimento declarativo é um pressuposto importante dos jogadores de elite e não resultado de elevada experiência, ou exposição ao contexto desportivo. Segundo Greco, o nível de conhecimento tático superior apresentado pelos atletas de clube pode justificar-se pelas exigências competitivas, bem como pela importância da componente tática do treino.
De acordo com Williams & Davids, o maior nível de conhecimento dos jogadores mais experientes deve-se também à prática desportiva e não apenas à instrução. Em suma, também defendem que os atletas mais experientes possuem um conhecimento específico da modalidade mais amplo, permitido-lhes identificar e valorizar determinadas situações e/ou soluções.

Brito & Maçãs, compararam alunos de nível competitivo (federados) com alunos do desporto escolar e chegaram à conclusão que os jogadores federados possuíam um conhecimento declarativo (o que fazer) superior, reforçando a tese de que os atletas de melhor nível possuem um conhecimento mais elevado do que os seus colegas de nível inferior.


Conclusões:

1. Os jogadores do mesmo nível competitivo diferem entre eles, em relação à inteligência geral e conhecimento específico do jogo;
2. Os jogadores de nível competitivo inferior prevalecem sobre os de nível competitivo superior na velocidade percetiva e atencional, fator geral de inteligência, capacidade de concentração e exatidão;
3. os jogadores com maior experiência e nível competitivo mais elevado apresentam um superior conhecimento específico do jogo.


Garganta: "De facto, à luz das exigências do desporto actual, não basta chegar mais longe, nem saltar mais alto, nem ser mais forte, é preciso ser mais rápido, mais veloz. Mais rápido, não apenas a chegar ao local desejado, ou a realizar uma ação mas também a pensar, a encontrar soluções, a perceber o erro, a descodificar os sinais do envolvimento. Em síntese, mais rápido e melhor, a perceber, a pensar e a agir"